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Mas, doutora: como é que ela vai sair de alta assim?



Uma pergunta que fala muito sobre nossa dificuldade de comunicação e sobre a assistência ao paciente crônico no Brasil.


Para exemplificar o que quero abordar neste post, proponho um exercício lúdico sobre uma paciente que vou chamar de Ana.


Ana é uma senhora de 80 anos, que até esta internação morava sozinha e contava com a ajuda de uma secretária. Dona Ana passou por alguns problemas ao longo desses 80 anos: há 20 anos operou um câncer de útero, há 15 fez um cateterismo cardíaco e convive com hipertensão e diabetes controladas. Desta vez, dona Ana internou por uma infecção de urina, cujos primeiros sintomas foram sonolência e perda de apetite.


Rapidamente dona Ana evolui para uma infecção generalizada, que obriga a passagem de sonda para alimentação. Após 20 dias internada, dona Ana se recupera da infecção, mas ainda precisa da sonda. Também passa a ficar mais tempo acamada e seu rim já não funciona tão bem. Não consegue mais tomar banho ou ir ao banheiro sozinha. Mas, a infecção está tratada e a equipe médica começa a falar sobre a alta. A família recebe a notícia com desespero. Vocês podem imaginar?


Dona Ana hoje exige recursos que não exigia antes, sua família vai precisar se reorganizar sob diversos aspectos para recebê-la, e como nunca passaram por situação minimamente semelhante antes, não sabem nem por onde começar.


Esse é o retrato de milhares de pacientes e familiares vivendo neste exato momento no nosso país: para os hospitais, não há nada mais que exija a internação do paciente. Para a família, não há a menor condição de recebê-lo em casa. Eu concordo com ambos.

Precisaríamos ter explicado para a família de Ana sobre reserva funcional, e o impacto de uma internação na vida dela. Explicaríamos que apesar de estar bem há pouco tempo, seu corpo é frágil, e uma simples e recorrente doença como uma infecção urinária pode levá-la a um quadro de grande dependência.


Falaríamos sobre como cuidar em casa: da importância do colchão adequado, de trocar os decúbitos, da hidratação da pele e da atenção ao aparecimento da menor lesão. Orientaríamos sobre a alimentação artificial, sobre como cuidar da sonda, como evitar e tratar entupimentos.


Proporíamos uma reforma na casa, retirada dos batentes, instalação de barras e cuidados com tapetes. Contaríamos com um fisioterapeuta, um fonoaudiólogo, um psicólogo durante toda a reabilitação da dona Ana.


Quando, apesar de tudo isso, Dona Ana apresentasse algum outro quadro infeccioso, acalmaríamos a família, lembrando-os que não aconteceu por falta de cuidado.

Mas, o que geralmente é feito é apenas lhe dar alta.


O tratamento para esse caso clínico não é medicamentoso. Ele é relacionado à qualidade de vida da paciente e à comunicação adequada com os familiares, que precisam compreender cada etapa do que acontece com Dona Ana e o que todos podemos fazer para trazer mais conforto e bem-estar para ela.


Veridiana Rodriguez,

Médica na Afecto Cuidados

CRM-SP 163090

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